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TEXTOS CRÍTICOS
Sentidos
O trabalho de escultor consiste em transformar a forma de materiais.
Nas suas obras, Hidalgo Adams aprisiona a languidez do corpo
feminino em pedra. Os corpos aprisionados podem tanto ser fartos,
como esguios, sendo igualmente sensuais. A que sentido se dirige a
arte da escultura? Toca-se o mármore, toca-se o granito, espera-se o
calor de um corpo suavemente apresentado. Sente-se a dureza do frio.
A beleza do corpo parece esvair-se por alguns momentos, mas ao
tirar-se a mão, sente-se o calor da imagem novamente. E novamente
pensa-se em tocar corpo tão belo. A forma que se vê desperta o
desejo, mas o contato entre o corpo de quem vê e o corpo que é visto
elimina instantaneamente o desejo despertado. A bela forma torna-se
fria. Talvez esse seja o grande mistério das esculturas de Hidalgo.
Midas transformava em ouro o que tocava. Hidalgo aprendeu a
transformar pedras amorfas em belas mulheres. Mas essas mulheres
gelam quem as toca. Em ambos os casos, a visão é o sentido que deve
ser despertado. Em ambos os casos somos privados do prazer de um dos
sentidos. O artista consegue, contudo, fazer com que a privação de
um dos sentidos potencialize outro sentido. Olha-se mais
intensamente aquilo que não se pode tocar. Deseja-se intensamente um
objeto que não deve estar ao alcance de nossas mãos. Deseja-se o que
não se pode ter. As esculturas de Hidalgo exigem contemplação.
Imagina-se cada pedaço de pedra sendo retirado, do mesmo modo como
se imagina uma mulher despindo-se. A cada lasca, a cada peça, o
desejo aumenta, até culminar na forma, até culminar na nudez. Quando
há distância física, a impossibilidade do toque parece mais suave. A
provocante proximidade da forma que se oferece ao toque exige que
não se sucumba, pois o prazer que ela insinua, o prazer que ela
promete, ela cumpre apenas se não for tocada. Ao tocá-la o prazer
esvai-se. Ao tocá-la a mulher esvai-se e vemos apenas pedra. É
preciso distância para ver uma mulher em uma pedra. Sua forma sempre
nos provocará e será preciso resistir, pois estão os condenados a
não senti-la mulher.
Ana Carolina da Costa e Fonseca
Bacharela em Direito -
UFRGS, Mestre e doutoranda em Filosofia - UFRGS
Professora de Filosofia do Direito e de Introdução ao Estudo do
Direito na ULBRA, Canoas

Espaço ocupado
Para quem se encontra no alvorecer de uma carreira assim como
Hidalgo Adams tudo é surpresa. E o curioso é que esse jovem escultor
com pouco tempo de vivência profissional, já nos apresenta soluções
formais de modo pessoalizado. Sim, podemos afirmar que são pessoais
porque Hidalgo Adams não é um artista erudito e nem dispõe de tempo
e dinheiro para comprar e debruçar-se sobre caros livros de arte
buscando informações. Nosso artista deixa fluir sua vocação que, se
apresenta a cada dia e cada vez mais, como seu verdadeiro ofício.
De outro modo ele não poderia surgir já que é laborioso, dedicado e
muito paciente. E acima de tudo é uma boa pessoa, uma pessoa
simples, sem arroubos - daquelas que quase se desculpam por existir
- e aqui penso que se conselho fosse bom de dar eu diria: exista
Hidalgo. Sem desculpar-se. Ocupe seu espaço. Você terá o futuro para
descobrir e ser descoberto, sem pressa, a arte afinal de contas não
é uma coisa imediata, mas esteja sempre atento. A tudo. A todos. A
esse mundo onde suas formas ganham vida própria.
Renato Rosa
Co-autor do
Dicionário de Artes Plásticas no Rio Grande do Sul, Editora da
Universidade, Porto Alegre, RS.
Porto Alegre, maio de 1997.

Dever de oficio
A arte que o escultor Hidalgo Adams desenvolve pode ser analisada -
a partir do momento que se constata sua existência - como um dever
de oficio e mesmo assim ela brota por necessidade expressiva. Seus
resultados projetam seu alto grau de proficiência. E' dizer pouco
para quem oferece muito em termos de resultado criativo, e aqui
temos que estimar e considerar sua origem humilde e crença de
autodidata. Hidalgo Adams cria e vê, através da pedra, o que quase
não se encontra mais: um abraço, símbolo de bem-querença e
solidariedade. Um trabalho que insiste em ser humano quando ao redor
tudo se desintegra. Na pra'tica e' um forte signo de resistência.
Raro.
Renato Rosa
Co-autor do
Dicionário de Artes Plásticas no Rio Grande do Sul, Editora da
Universidade, Porto Alegre, RS.
Rio de Janeiro, 08 de maio de 2006.

O guerreiro do sol
Esta lançada, porque nasceu, uma nova ordem. São os "Guerreiros do
Sol", do escultor gaúcho Hidalgo Adams. Evidentemente que se trata
de um símbolo, forte, encetado. Combativo e otimista em sua
figuração, conquistador. Uma imagem decidida, guardiã e destemida
que traz, gravado em seu escudo, um sol radiante; o sol que aquece a
vida e ilumina o caminho dos combatentes. Hidalgo sabe disso porque
e' um trabalhador de sol a sol, um guerreiro em seu oficio. Artista
dedicado integralmente a seu labor, vive em função de sua vida
profissional, dos frutos que sua luta diária lhe proporciona e que a
cada dia se configura - de modo crescente - em reconhecimento. Mesmo
assim ainda e' pouco para um artista jovem, mas muito para quem lhe
acompanha e respeita. Um vencedor, corado na vermelhidão de sua
humildade. Um escultor assim so' poderia ter nascido em terras
vermelhas e cheias de pedra, na lonjura do pampa - de heróicas
batalhas - varrido pelo Minuano. Portanto, não e' de assustar que
seu tema esteja ligado ao valor da conquista.
Renato Rosa
Co-autor do
Dicionário de Artes Plásticas no Rio Grande do Sul, Editora da
Universidade, Porto Alegre, RS.
Rio, outubro de 2006. |